junho 25, 2012



Até que uma parede vos separe...


Eu tinha 10 anos de idade outra vez quando entrei naquela sala... Suja, um colchão encardido e sem lençol encostado na parede, do outro lado um fogão velho que das 4 bocas só funcionava uma, duas talvez. Recordei-me da assistente social, fazendo as visitas de praxe, identificando em nós doenças causadas pela urina de ratos, ratos enormes... Naquela casa velha eles eram maioria... E era tudo que o salário do pai dava pra pagar, diga-se de passagem, o salário de seus dois empregos... Curitiba era fria naquela época, mais que agora, me lembro dele levantando na madrugada gelada, lembro-me da camisa e da blusa de uniforme, azuis, lembro-me do cheiro dele, nem preciso me esforçar muito... Meu pai sempre teve um cheiro só dele... Eu seria capaz de reconhecer dentre um milhão. Não era um cheiro gostoso, era meio tinta e suor, às vezes graxa...
A casa velha de madeira era enorme, mas tinha apenas dois quartos, eu dividia com o irmão do meio e com as máquinas da mamãe... Ela virava as noites costurando, e aquele quarto também tinha um cheiro característico... De tecido e pó...  Eu não me importava com os ratos, com a pobreza, com a falta da presença dos meus pais... A cerejeira no quintal e a fábrica abandonada no fundo supriam todas as nossas necessidades infantis... Aos 10 anos eu andava sozinha na rua com os irmãos menores, levava-os à escola, atravessávamos as ruas movimentadas fazendo firula, nem se falava em violência... Vez ou outra desaparecia uma criança, geralmente nos mercados ou shoppings, não tínhamos dinheiro pra frequentar esses lugares.
Os anos foram passando e a pobreza continuava a mesma, aos 13 eu adoraria ter um par de  tênis ... Então, depois a vida tornou-se melhor, não vivíamos mais em casa de chão batido, tínhamos até chuveiro em casa, veja só! A essa altura já havíamos mudado pra um não sei que número de cidades e casas diferentes, eu não me lembro de ver meus pais desistirem... Desanimavam e se apegavam numa fé que eu nunca soube bem de onde vinha, tentavam outra vez, de outras formas, algumas vezes em outros lugares... Talvez venha daí o meu desapego com tudo, sempre fui um pouco (muito) cigana...
Cresci, o tempo passou e tudo se tornou melhor, não menos dificultoso, mas melhor... A casa agora era própria, meu pai tornou-se um avô bobão... Nunca consegui frear os exageros dele, porque ele sempre me fitava com os olhos e dizia: “Quando você era pequena eu não pude te dar, agora posso”... Eu tenho um orgulho imenso do meu pai...
Estava do lado de cá da parede quando o ouvi chegar... Fui até lá e o que vi me transportaram novamente aos 12 anos, só que agora nada mais unia meus pais, e além de tudo o que os separava havia uma parede de madeira barata, não servia nem pra separar os cheiros e ruídos, de um lado eu podia sentir o cheiro da comida do outro... Podia ouvir também as ofensas trocadas...
Divisão de bens...  Inversão de valores... Fogo cruzado, festival de ofensas descabidas... Quase 30 anos de uma vida partilhada, duramente partilhada, e tudo se resume em partilha de bens, de dividas...
No carro, de volta pra casa, eu tenho novamente 27 anos...  Eu tenho vontade de chorar... E eu não tenho palavras pra descrever aquele cenário psicológico...
De volta pra casa eu me sinto naquela casa de madeira velha, mas agora eu sinto medo dos ratos, agora eu sinto a falta dos meus pais, eles não estão trabalhando...  E eu já não tenho mais idade pra subir na cerejeira e me esconder...

2 comentários:

  1. Sem palavras pra descrever o quanto isso dói em nós!

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